terça-feira, 22 de maio de 2007

"Quando o amor perde" - IV

Além de tudo isso e não só pela grande função que há na criação literária junto à elaboração cênica, a compatibilidade entre o linguajar e a condição de montagem, mas também para servir como ponto de partida para debates com a comunidade sobre essa praga quase incurável: a violência contra a mulher, contra as menores. Agressão que cresce cada vez mais a partir do momento em que o sistema fica bruto contra os chefes de famílias e os jogam na lista do desemprego e da vida miserável sem condições de segurar suas filhas no seio do lar ou nas escolas. A violência desponta quer pelo homem quer pela própria mulher, porque não entra em pauta apenas a violência sexual, corporal, mas a psicológica. O homossexualismo não pode ser encarado como uma praga porque muita gente o tem como uma opção de vida e aceita com todo prazer, mas é tema para se debater e nunca chegar a uma conclusão concreta como se pode ancorar no referente à violência: leis para punir os agressores, jamais uma fórmula para evitar a agressão. E ambos temas estão espalhados nas grandes e pequenas cidades do país, aonde o livro ou a montagem chegarem terão respaldo para se falar que ali também já houve menores exploradas ou quando acontecer lembrarão da peça. Só não haverá o tempero cômico que o povão gosta, porque na nossa realidade a violência nunca tem o seu lado divertido. Nem mesmo para quem a pratica. Acreditamos que a leitura desta peça, que traz temas e subtemas tão vivos, no nosso país, só irá enaltecer as mentes deste nosso povo. O texto e o contexto da própria obra, “Quando o amor perde”, ditam as propostas a serem atingidas pela nossa publicação. Violência versus lirismo domina o texto e aponta duas atitudes tomadas pelas personagens, pois enquanto uma, mesmo mais avançada na idade, se entrega ao relacionamento em busca do ser correspondida, fugindo do real papel que a sociedade impõe a uma mulher; a outra tem a convivência como um esteio para se sustentar nas suas aspirações, quer fugir mas as suas pernas não têm passos próprios. Além destes temas tão polêmicos, propomos mostrar a força da mulher no teatro, onde as duas personagens se confundem na força do papel que desempenham e torna-se difícil estabelecer quem é a principal protagonista. Desconhecemos o todo da produção literária teatral, no Brasil, mas sabemos que se o texto não é o único é um dos poucos que traz duas mulheres homossexuais e com tamanha força no contexto. Em Vitória da Conquista, cidade onde a obra foi concebida não é mais o único texto no gênero, porque o autor tem diversos textos em que duas mulheres vivem o amor de uma pela outra em situações totalmente diferentes. Propomos também, analisar os diversos tipos que participam na comunidade social, como os viciados, estupradores, capaz de renegar o fruto de um amor em favor da exploração de menores nas portas das escolas; o padrinho que livra a afilhada e sua família da fome, mas foge as normas estabelecidas pela própria Justiça e a usa sexualmente; o Padeiro, figura que surge para mostrar o quanto o homem, mesmo trabalhador, torna-se tão monstruoso perante o desejo sexual e estupra impiedosamente uma menininha; a vice-diretora que teria como meta principal recuperar seus alunos a mercê da marginalização e não excluir uma que se estava perdida de um lado poderia ser salvo, pois ela mesma buscava uma vida melhor através dos estudos e se o destino não colocasse a juíza no seu caminho não haveria mais como recuperá-la. Embora a peça traz uma temática central, não deixar de misturar mais de um tema, diversos subtemas. Além dos temas enfocados, podemos destacar com forte constrangimento: a decadência do ensino; a traição, onde Eclã surge como o grande vilão nos seus relacionamentos; a ganância pelo dinheiro, onde os personagens não respeitam crianças e as jogam quer no tráfico quer na prostituição: o dinheiro conduz o sistema e quem vive nele, no texto, não há a bondade esperada por todos e tão comum como lição de moral, o padrinho não se arrepende do que fez, quer é mais, o máximo para satisfazer o seu prazer, com a afilhada. O dinheiro podia comprar a inocência da garota e o silêncio da mãe. A questão do vício desponta no enfoque de que as drogas podem mudar toda a trajetória normal de uma família, vidas de pessoas normais podem ser destruídas socialmente ou até mesmo ceifadas; a problemática sexual se faz presente nas suas diversas formas e gostos apresentados pelas personagens onde abre um leque para se debaterem essa temática ainda tabu para muitos. O nosso trabalho não se limita a um público elitizado, mas a todo indivíduo que queira raciocinar sobre o mundo. O cenário é o quarto de um motel, esse ambiente vem como símbolo de quebra da normalidade estabelecida pela sociedade brasileira, porque o comum é suportar um casal heterogêneo, mas esse espaço é destinado ao relacionamento de duas pessoas do mesmo sexo, onde tantas menores são abusadas. Contrasta com a sala da casa de um aposentado por invalidez, pai de uma garota de programa, que vende o seu corpo para sustentar a sua faculdade, realidade cada vez mais crescente nas cidades universitárias do país. Atores e cenário formam uma perfeita distribuição do espaço, a fim de notabilizar e visualizar o conjunto para o espectador, sem que a ilusão se desfaça.

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