Por ser atraente e bonita, Rudilei torna-se vítima do desejo sexual, principalmente, pelos homens que quase sempre não sabem conter seus impulsos fisiológicos e partem para a agressão e o desrespeito quanto ao processo de ser mulher e merecer o respeito como pessoa, mas não tem esse respeito nem quando era criança que passa a ser objeto de abuso sexual por diversos homens que compram o seu corpo. O autor entende que denunciando e debatendo tais práticas contribui para conscientizar e inibir pessoas que usam tais adolescentes sem analisarem que elas não estão ali por puro prazer, mas por fome, barriga vazia, carência financeira da família, falta de projetos dos governantes que dêem condições das famílias se manterem e afastarem suas meninas das drogas e da prostituição e não levá-las, serem cúmplices. Ela é vista como uma carne apodrecida, sem nenhum valor, tão somente para alimentar o desejo daqueles urubus ardendo em fome sexual. Esta visão só é estampada porque todos se colocaram nas condições de fracos e impotentes, incapazes de reagirem ante a bruta violência que emana dentro da própria sociedade. Realidade tão presente no nosso cotidiano. Alguns, de tão covardes, aderem à violência imposta pelos brutos e chegam a pagar para também abusarem sexualmente da indefesa Rudilei. Avanilton baseia-se em fatos reais, de tão comuns, deixaram de ser isolados e ao longo do dia a dia são noticiados em cidades diversas, de maneiras diferentes, cenários reais, personagens diversificadas, mas o resultado é o mesmo: menores abusadas por viajantes, familiares. E quantas dessas jovens não são estupradas ou assassinadas? A dureza da realidade não abre espaço para a comicidade, poderia haver um tempero cômico para quebrar o lado dramático verificado em qualquer ambiente onde haja almas submissas a desejos fortes que conduz cada personagem a agir rigorosamente dentro da lógica peculiar a sua força interior de conter ou não os seus impulsos, mas chegaria à platéia sem a veemência que o dia-a-dia dessas menores realmente é vivido por elas. E quando o texto quer ser cômico denuncia a bruta corrupção de Brasília e quão selvagens os representantes do povo agiriam. Máquila, além da sua vida profissional, juíza da infância e da adolescência, não conhece outro dever além daquele de correr em auxílio a Rudilei. Participando de uma ronda para coibir o abuso sexual contra menores é chamada a comparecer a um local onde a polícia havia detido um grupo que fazia uma orgia de sexo e drogas com diversas menores e uma delas agonizava devido a uma over-dose. Determina a sua recuperação e acompanhamento da assistência social. Amor e proteção, mesmo de longe. Sempre buscando o melhor para a sua protegida. Mais tarde, ao se aproximar num programa, cai em uma terrível contradição, pois enquanto combatia o abuso sexual e coordenava um projeto de recuperação dessas adolescentes abusadas, ela própria passa a extravasar seus desejos num quarto de um motel alimentando a vida de garota de programa daquela que ela secretamente ajudou a deixar a vida errada. Discreta, mas isenta de qualquer preconceito moral, assume o papel de mulher amante de outra mulher sem questionar o porquê e recusa-se a responder quando interrogada. O importante não era ser questionada, mas dar-se, amar e ser amada. Para ela, sua vida particular não interessava a ninguém, desde que ninguém soubesse para não ser arrasada profissionalmente. Queria era ser feliz e fazer feliz. Não obedecia às exigências do bom senso impostas pela sociedade e religião: heterogeneidade num relacionamento a dois. Ela entrega-se à torrente da própria paixão. No dueto que as levam à aproximação carnal cada uma extravasa o seu tumulto íntimo sem lograr comunicá-la a interlocutora e sem compenetra-se das razões irracionais que cada uma arrasta. Embora, o público questione se o amor da moça não seria também uma farsa só para ter a proteção: dinheiro do programa e as quitações das mensalidades da faculdade. Máquila, sequer questiona, contraria seus espectadores e sai mais uma vez em defesa da companheira quando descobre o que o destino havia reservado para as duas. Quais seriam as pretensões de Rudilei ao concluir seu curso de direito? O público percebe que o relacionamento, embora bonito e cheio de palavras de amor, há segredos que nem mesmo as duas personagens sabiam e se arrasam emocionalmente quando descobrem. A religiosidade, tão respeitada em nossa sociedade, não exerce influência na trajetória das personagens, mesmo Máquila se revelando ser oriunda de família religiosa e ter a sua formação dentro de uma igreja, mas perante o sentimento pela sua amada renega uma figura suprema. Ao vir à torna o grande segredo das duas, o público fica à mercê de uma lógica para o relacionamento das duas. Havia amor de mulher para mulher? Ou seria possível haver uma atração por conta do destino que só a revelação de um segredo faz uns acreditarem em provável possibilidade ou tudo não passaria de um mero recurso da ficção? E o público pode questionar, questionar e questionar. Colocar-se no lugar de cada uma das personagens e não saber justificar o porquê de tão forte atração de uma pela outra. As duas figuras da peça surgem como arquétipos humanos, representam ao mesmo tempo tipos vivos da realidade brasileira que não se entregam as normas estabelecidas pelo sistema ou pela religião. Estabelecem suas maneiras de ser e amar, mas não conseguem ser diferente quanto às atitudes e o caráter. Avanilton Carneiro sabe fazer esse jogo de personalidades das duas personagens e permite as duas mostrarem onde são mocinhas, onde são bandidas, onde são vítimas e como esconderem o próprio lado indesejado de cada uma. Retrato vivo do ser brasileiro. O autor pegou relatos de diversas alunas e os centralizou em uma personagem e com isso conseguiu denunciar que a sua cidade também não fica fora da rota do abuso sexual a menores, porque a sua terra natal é cortada por diversas rodovias famosas.


Nenhum comentário:
Postar um comentário