terça-feira, 22 de maio de 2007

"O Porão" - Avanilton Carneiro



Às vezes, um texto tende a ter o mesmo destino do seu personagem principal: esquecido num porão ou deixado de propósito numa gaveta para um dia ser o ator, juntamente com sua esposa: responsáveis pela estréia da peça. A gente pensa uma coisa, o destino nos oferece outra. Quantas vezes o autor tentou montar esse espetáculo? Quantas leituras iniciadas? - Incontáveis. Nunca deu certo. Devido o estado de saúde abalado, definitivamente, o autor desistiu de atuar, viver Pã, contracenar com a sua esposa, a atriz Célia Santos, no papel de Erínea, nesse que poderão não considerá-lo como o seu melhor texto teatral, mas é o que o autor mais estima, mais gosta, mais leu, mais desejou montá-lo e se esbarrou na luta pela sobrevivência, na falta de apoio financeiro para impor a sua dramaturgia. Resolveu disponibilizá-lo na Internet e torcer que algum outro colega o descubra e alcance o sucesso que ele sempre quis vivendo essa situação agonizante do personagem central. O texto é forte, quem o ler não consegue tirá-lo da mente, quem assistir à peça não vai conseguir esquecê-la. De repente, logo de início, percebe-se que o personagem está perdido: acorrentado, preso num porão, sem saber qual o seu destino, o porquê de estar ali. Pensa ter sido confundido com algum artista famoso, empresário rico ou político. E vêm à mente duas questões: ser solto ao perceberem o engano ou, irados pelo erro, acabarem com a sua vida como forma de autopunição ou de puni-lo por ser a pessoa errada. Nesse conflito se desespera e pede socorro, mas a platéia não pode acudi-lo, passiva, alheia a sua tormenta, fica curiosa em saber o porquê também. E uma mascarada chega, desce os degraus do porão e só pelo fato de portar uma máscara levanta desconfianças. Ele ainda não sabia o nome dela: Erínea, uma deusa que perseguia os criminosos na mitologia grega. O autor lhe reserva esse arrepio inicial, porque o seu nome: Pã, significava crime, perseguição as ninfas. Como duas pessoas de nomes tão correlatos poderiam se deparar num porão? Como o destino permite que dois nomes desses se cruzem no decorrer de suas existências? Nem a própria ficção será capaz de explicar, pelo contrário, vai deixar as mentes aguçadas em justificar, oferecer caminhos para as divergências, jamais apresentar o porquê de, no meio de bilhões de habitantes no mundo, esses dois nomes tão significativos deixarem marcas tão profundas nos seus respectivos donos em momentos diferentes da vida de cada um. “O Porão”, de Avanilton Carneiro, torna-se uma peça importante porque inverte a situação rotineira da violência no país. É comum e as estatísticas comprovam o alto índice de violência contra a mulher, mas a peça mostra o contrário, o autor busca inspiração na minoria: a violência da mulher contra o homem. É rotina as manchetes estamparem abusos e violências sexuais contra as mulheres, mas raríssimas vezes se vêem o contrário. E quando acontece, a mulher que se propõe a fazer executa com perfeição. Todo homem sabe disso. Por isso, o personagem central percebe o perigo que ele começa a correr. Melhor seria se fossem marginal de carreira, porque lhe restaria uma esperança de sair com vida. Mas nas mãos de uma psicopata sexual era incerto o seu presente mais ainda o seu futuro. A agressão física já havia sido cometida quando ele é neutralizado com gás paralisante e inala uma droga que o desacorda. Essa ação se passa quando ele praticava sua corrida. Ela se aproxima, o domina e ele nem tomou conhecimento de como foi, não viu, não sentiu, não percebeu. Sabe apenas que se encontra prisioneiro dela e ele não veio com as próprias pernas. Por quê? Não só ele, mas o público vai questionar quando a personagem subir os degraus, desligar as luzes e fechar a porta do porão encerrando-se o primeiro quadro, porque além de não ter dinheiro, possuía débitos, deixa que o autor use para criticar o sistema empresarial do país em punir os trabalhadores inadimplentes. Questionamentos ficarão. Todos perceberão o quanto ela foi eficiente na captura da sua vítima. E ele descobre que não foi confundido com ninguém. Era ele mesmo o alvo. O que ninguém esperava era ter a confissão de que ela não pretendia matá-lo, mas conquistá-lo, fazer com que ele esquecesse a mulher e filhos e a amasse, a fizesse feliz. Boquiaberto, pois não se trata de um tipo galã, apenas um homem comum, porém nota que o perigo é bem maior do que aquele corpo lindo e atraente podia demonstrar. Ele, ao vê-la, não transparece o desejo que todo homem tem ao ver um corpo tentador, procura passar a impossibilidade de um dia vir a amá-la porque seu coração já tinha dona: era de outra mulher. Ela não se incomoda, sabe que dentro de poucos dias ele vai morrer de desejo sexual, capaz de tudo para satisfazer o seu apetite, saciar a sua fome. Louco de desejo, ela sabe que terá um homem frágil pela frente e vulnerável aos sentimentos. Se ele esquece a mulher e vem a amá-la só o tempo poderá responder. E em busca dessa resposta, o público se comportará pacientemente, pois sabe da incógnita que o autor ofereceu para ser decifrada. Mesmo sendo homem, vai suportar ficar preso para poder amar alguém? E o pior: esquecer uma mulher? Erínea se sentiria bem com a situação: ser capaz de conquistar um homem tão somente pela força? Era apenas conquistá-lo, ter o seu amor ou algo mais ainda estava oculto? A peça acabava de começar. A primeira queda de luz somente encerava o primeiro quadro: as primeiras dúvidas, os questionamentos iniciais. O segundo quadro é marcado pela tortura sexual e psicológica. Sabe-se que já há algum tempo em que ele está prisioneiro. A imprensa já divulga o seu desaparecimento. A polícia o procura, fato que só acontece ao passar quarenta e oito horas do desaparecimento de uma pessoa. Ele sofre e sabe que seus familiares sofrem também. Preocupa-se com o bem estar dos filhos e sente que está sendo vítima de algum tipo de vingança, mas não consegue se lembrar. Erínea responde a curiosidade do público: “Quer uma dica, seu leviano, miserável? Eu não era a única mulher da sua vida. Você saía do meu regaço e ia se envolver entre outras pernas”. O que para Pã não passava de um prazer sexual, uma orgia, para ela foi uma experiência única: “O que pra você não passava de uma sacanagem, para mim, era uma pureza de amor, esperança da eterna felicidade”. Mesmo nesse sexo leviano, ela foi capaz de amá-lo e resumir sua vida num único desejo: um dia reconquistá-lo. Como entender a mente humana? O próprio ser humano? Poucos dias não significam que um homem possa se sentir dominado pelo desejo sexual. Ela sabia disso, mas tinha ciência que nunca é cedo para começar uma tortura, para aguçar o instinto sexual de um homem. Na primeira tentativa, ela falha. Ele tenta agredi-la, mas preparada para se não desse certo, ela o rende com uma arma e usa o seu segundo plano: o psicológico. Começa o jogo onde o objetivo é deixá-lo preocupado, tentar adivinhar que mal ele cometera, fazer um profundo exame de consciência e buscar no seu passado o deslize que a levou a loucura, a resumir sua existência numa vingança. Foram tantas orgias, tantas mulheres, tantas camas com mais de uma mulher, uma juventude sexualmente ativa. Jamais iria imaginar que um dia pagaria pelos prazeres de outrora. Ele sabe que sua adversária é fria. Preparou-se para o combate, adquiriu vantagens, dona da situação. Mas sabe também que a obsessão é por causa do amor que sente por ele. Ela ama e uma mulher quando ama torna-se vulnerável, frágil, capaz de ceder. Ele também analisou que é no amor que a mulher se concretiza numa fortaleza, capaz de tudo. Ela poderia ser do tipo: ou é dela ou de ninguém. Por isso, ele sabe o risco que corre. Chegar ao ponto fraco dela não seria impossível, mas a sua situação era limitada, carente de recursos, preso as correntes, sem condições de agir, dominá-la. A realidade era que ele era o dominado fisicamente, preocupado mentalmente e oprimido psicologicamente. Principalmente, quando ela fecha a cena dizendo-lhe que estava em contato com a família dele. Que jogo psicológico ela estaria fazendo em seu lar? Não teve chances de saber. Ela desliga as luzes, fecha a porta e o deixa torturado moralmente, fisicamente, sexualmente e psicologicamente.O terceiro quadro, ela começa com um novo tipo de jogo psicológico. Faz entender que a família não sente mais a falta dele. Mostra o quanto ele é insignificante para os filhos, que estes nem se lembram mais do pai devido à longa ausência do seio da família envolvido com o trabalho. A mulher nem chora mais a sua falta. Perdeu a função de chefe para um colega e com o salário sem o acréscimo da pasta que ocupava, em apenas dois meses, a mulher tira o nome dele dos órgãos de proteção empresarial. Por que ele não conseguiu com o salário melhor? Fica essa dúvida na mente do público.

Um comentário:

Anônimo disse...

intiresno muito, obrigado