terça-feira, 22 de maio de 2007

"JULIETA JULIETA" - II


(Foto: Célia Santos ensaiando a coreografia: "Lesbos", de "Julieta Julieta") No dueto que as levam à aproximação carnal cada uma extravasa o seu tumulto íntimo sem lograr comunicá-la a interlocutora e sem compenetra-se das razões irracionais que cada uma arrasta. Maltek quer privar Silva de envolver-se no esporte, pois sabe que é um campo extra seu domínio. Sua amada estaria propícia a outras mulheres que pensam, agem e vivem como elas, sobretudo, bem próxima do outro sexo, quer como torcedores quer como envolvedores com a prática esportiva. Julieta Soares demonstra aceitar o assedio de outras colegas e chega ao ponto alto da sua dúvida quanto à maneira de ser ao revelar a vontade de ser tocada por um homem. Mas, este desejo, não seria a única coisa a esconder. A sua origem não passou de uma história inventada ao se conhecerem. E durante anos sustentou tal mentira.
Embora, o público questione se o amor da moça não seria também uma farsa só para ter a proteção: casa, estudo, comida, dormida, amor, sexo, vida boa. Julieta Maltek, sequer questiona, contraria seus espectadores e sai mais uma vez em defesa da companheira quando descobre que o pai estava vivo e parte para definir o que tinha começado: o abuso sexual, que não significava nada para ele em relação aos oitocentos mil dólares em poder da sua filha, escondidos em algum lugar e a defensora nada sabia. Enganada até o fim. Quais seriam as pretensões de Julieta Silva ao concluir seu curso de medicina com todo aquele dinheiro? O público percebe que o relacionamento, embora bonito e cheio de palavras de amor, há segredos, desconfianças, mentiras, armações e traições.
A religiosidade, tão respeitada em nossa sociedade, não exerce influência na trajetória das personagens. Maltek renega uma figura suprema, mas apela para este Ser Supremo quando não pode ter mais a sua amante nos braços e Julieta Silva se faz verbo e conjuga-se ante a sua amada que ao saber da existência dos oitocentos mil dólares ignora estar diante de um fato tão importante que só Cristo conseguiu: a ressurreição. Abandona aquela que ela sempre amou e a protegeu e parte em busca do dinheiro sem dar a mínima se o autor, naquela cena, satirizava ou não o filme Ghost. E o público fica à mercê de uma lógica para o relacionamento das duas. Havia amor? Quem realmente amou? O dinheiro corrompe uma vida a dois? Leva uma ou as duas a traírem? E o público pode questionar, questionar e questionar. Colocar-se no lugar de cada uma das personagens e não saber como agir diante do fato.
As duas figuras da peça surgem como arquétipos humanos, representam ao mesmo tempo tipos vivos da realidade brasileira que não se entregam às normas estabelecidas pelo sistema ou pela religião. Estabelecem suas maneiras de ser e amar, mas não conseguem ser diferentes quanto às atitudes e o caráter. Avanilton Carneiro sabe fazer esse jogo de personalidades das duas personagens e permite as duas mostrarem onde são mocinhas, onde são bandidas, onde são vítimas e como esconderem o próprio lado indesejado de cada uma. Retrato vivo do ser brasileiro.
Além de tudo isso e não só pela grande função que há na criação literária junto à elaboração cênica, a compatibilidade entre o linguajar e a condição de montagem, mas também para servir como ponto de partida para debates com a comunidade sobre essa praga quase incurável: a violência contra a mulher. Quer pelo homem quer pela própria mulher, porque não entra em pauta apenas a violência sexual, corporal, mas a psicológica.
O homossexualismo não pode ser encarado como uma praga porque muita gente o tem como uma opção de vida e aceita com todo prazer, mas é tema para se debater e nunca chegar a uma conclusão concreta.
Como se pode ancorar no referente à violência? Leis para punir os agressores? Provavelmente, mas jamais uma fórmula para evitar a agressão. E ambos temas estão espalhados nas grandes e pequenas cidades do país, aonde a montagem chegar terá respaldo para se falar que ali também já houve uma violência parecida ou quando acontecer lembrarão da peça. Só não haverá o mesmo tempero cômico, porque na nossa realidade a violência nunca tem o seu lado divertido. Nem mesmo para quem a pratica.
Acreditamos que a montagem desta peça, que traz temas e subtemas tão vivos, no nosso país, só irá enaltecer as encenações cênicas deste nosso teatro.
O texto e o contexto da própria obra, JULIETA JULIETA, ditam as propostas a serem atingidas pelas montagens.Violência versus lirismo domina o texto e aponta duas atitudes tomadas pelas personagens, pois enquanto uma, mesmo mais avançada na idade, se entrega ao relacionamento em busca do ser correspondida, fugindo do real papel que a sociedade impõe a uma mulher; a outra tem a convivência como um esteio para se sustentar nas suas aspirações, quer fugir mas as suas pernas não têm passos próprios.

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