terça-feira, 22 de maio de 2007

"Quando o amor perde" - I

Comentários da Obra: "Quando o amor perde", de Avanilton Carneiro. Este texto traz tamanha força no seu todo que é capaz de fazer indivíduos pensar diferente após manter contato com ele, principalmente por se tratar de uma peça que enfoca um tema presente não só dentro da comunidade em que o autor vive, mas em todo o país: o abuso sexual contra crianças e adolescentes. No caso, “Quando o amor perde”, de Avanilton Carneiro, trabalho que pela importância literária, situa um tema muito forte: o abuso sexual contra menores nos postos de gasolina ao longo da Rio-Bahia, mas o aliciamento de menores dentro e nas portas das escolas públicas tanto para a prostituição como para o tráfico de drogas surge como forte concorrente a roubar o estrelismo da situação principal. Escondido num outro tema que se confunde e luta para não ser um subtema, mas tem a mesma importância num contexto de debate, no referente à marginalização: o homossexualismo feminino. No fundo destes dois temas da obra de Avanilton Carneiro destampa uma realidade viva em nossa sociedade: o abuso sexual. Quer familiar, através do padrinho e do próprio pai; quer fora do seio do lar, através das demais personagens que surgem no caminho da nossa Rudilei, personagem que já nasce num lar trágico e perturbado. Filha de pais separados. Aos quatro anos de idade, após perder a irmã: vítima de um crime bárbaro e perverso quando fazia programa com o objetivo de conseguir o dinheiro para comprar os remédios da irmãzinha que estava com pneumonia, tendo como clientes os caminhoneiros. Ainda criança, Rudilei é amarrada e estuprada por três colegas de escola que passam a possuí-la todos os dias até serem surpreendidos por uma gang formada por dez meninos de rua e todos aproveitam daquela garotinha de menos de dez anos. Mas, o pior estaria por vir. Poucos dias depois, não eram mais crianças do seu porte físico, mas um bruto a violenta levando-a a ser hospitalizada e ficar com uma marca de quinze pontos na vagina. A sua entrada para o Ensino Fundamental poderia marcar uma nova etapa na sua vida, porém, na sexta série, já aos doze anos, é onde aprende a banalizar o sexo em grupo, entrar num bordel comandado por uma colega de apenas treze anos de idade, traficar armas e drogas e se viciar sentada na cobertura da caixa da bomba d’água a menos de vinte metros tanto da diretoria como da secretaria e salas de professores. E ninguém nada fazia para coibir uma constante roda de fumo em pleno pátio da escola onde crianças de dez e onze anos corriam em torno dos usuários aspirando aquele cheiro. Do vício, passa a adquirir armas junto aos policiais que faziam ronda nas proximidades do posto de gasolina aonde ela fazia ponto nas noites frias da Vitória da Conquista, cidade localizada à margem da Rio-Bahia, para alimentar os colegas que faziam assaltos. Nas duas primeiras semanas do Ensino Médio, é expulsa do colégio ao denunciar que uma professora, prima da vice-diretora, fora surpreendida por alguns colegas saindo de um motel com o diretor da sua unidade. Daí, devido o escândalo ter se espalhado, não encontra vaga em outras escolas e parte para a capital baiana, onde de início, no seu primeiro programa, é vítima de uma over dose e quase perde a vida. É quando uma juíza, Máquila, a conhece, embora não seja homossexual, se sente atraída pela a adolescente e mesmo de longe passa a cuidar dela, a faz recuperar da drogas, reencontrar com o pai, voltar aos estudos até a entrada para a faculdade e, sabendo que Rudilei sustentava seus estudos com dinheiro do sexo, marca um encontro e surge uma atração mútua. A vida da garota muda para melhor. Ela só não sabia que a maior tragédia da sua vida surgiria justamente desse relacionamento que tanta felicidade estava lhe causando e que só lendo ou assistindo a peça se tomará ciência de quanto o destino muitas vezes torna-se tão cruel para uma pessoa que quer apenas ser feliz, viver o mais puro amor. Mesmo que seja um amor diferente. A peça é uma ficção cheia de relatos de cenas reais as quais presenciadas e combatidas pelo próprio autor quando ele foi nomeado diretor de um colégio público e encontrou quadros deprimentes, onde, enquanto plantava-se por uma infinita espera pelo coletivo numa parada de ônibus à margem da Rio-Bahia para retornar da longa jornada diária da insegura labuta de dirigir um colégio público presenciava alunas da sua unidade passarem, com roupas devassas, em direção a um posto de gasolina o qual ainda serve de ponto de exploração de menores. Após constatar essas ocorrências, o autor começou um trabalho para coibir tal ação e do diálogo com as meninas surgiram duas peças: “A voz” e “Quando o amor perde”.

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